Influências religiosas no universo nerd

Por: Anthony Trabuco

λλλ, nerds!

É, para alguns, essa expressão pode até ser comum. Mas para quem não conhece, “λ” (lambda) é a décima primeira letra do alfabeto grego, e passou a ser usada como saudação após o sucesso do filme A Vingança dos Nerds (1984), onde um grupo de jovens nerds excluídos dos círculos da sua faculdade (se identificou? Haha) decide, depois de terem sido desprezados pelas confrarias Alpha Beta e Delta Pi Pis, criar sua própria fraternidade estudantil, a “Lambda Lambda Lambda” ou “3-Lambs”. Há quem ame o filme, há quem o odeie e chame de “lamentável”. Mas não é exatamente sobre ele que que vamos falar hoje. A ideia de criar uma “fraternidade nerd”, onde não se faz distinção de cor, raça, gênero, sexualidade, classe ou religião é algo interessante. Um grupo de pessoas que se unem para desenvolver seus pontos em comum, deixando de lado suas diferenças é sempre intrigante.

Mas parece um tanto fácil demais. “Deixar as diferenças de lado” é quase impossível, visto que essas diferenças não são mera “opção de escolha”, mas acabam permeando a forma como vemos o mundo. Querendo ou não, acabamos introduzindo tais características dentro daquilo que fazemos e vivemos. E isso é ruim? De jeito nenhum! Só deixa o conteúdo mais rico e interessante. Um dos aspectos pessoais que mais acabam se infiltrando, mas ao mesmo tempo, passando despercebidos no universo nerd é aquele que traz a característica de fé de cada um: the religion.

Sim! Nossa cultura geek é cheia de referências à identidade religiosa dos personagens e de seus criadores. Identidades das mais diversas, que vão “de fora para dentro” e “de dentro para fora”. Okay, vamos por partes, deixando um pouquinho mais claro…

Recentemente o Chris Hemsworth revelou que deseja interpretar o Thor em mais filmes, e há rumores de que ele até já renovou o contrato. O que todo mundo sabe é que Thor Odinson, filho mais velho de Odin, o deus dos deuses nórdicos, é o herdeiro legítimo do trono de Asgard, e tem Loki, o deus da trapaça, como seu meio-irmão, que sempre tenta passar a perna nele (de vez em quando é até bonzinho, todo mundo ama). Dentro desse universo, a Marvel explorou mais personagens da cultura nórdica, e com algumas diferenças e peculiaridades, moldou-os conforme lhes pareceu necessário. O Thor original, por exemplo, como descrito na mitologia nórdica, é ruivo e barbudo (e não tem toda a beleza que o Chris deixa passar). Algumas características nas histórias, que vão um pouquinho além do visual, também foram acertadas para se adaptarem melhor ao arco do UCM. Como por exemplo Hela, que em Thor Ragnarok temos como a filha primogénita de Odin que foi exilada após a morte das Valquírias. Na mitologia nórdica, a deusa do Reino dos Mortos é (pasmem) filha de Loki. É, ficaria meio complicado encaixar isso no arco da Marvel nas telonas.

Saindo um pouquinho do brilhantismo de Stan Lee (que Deus – ou deuses, depende do ponto de vista – o tenha), temos diversas outras referências (os olhos do Steve brilham) à religião na natureza de seus personagens. Um ser “humano, mas não humano”, é mandado pelo pai à terra. Aqui, é criado por camponeses. Com seu imenso poder, se torna o salvador do mundo. Com citações à morte e ressureição, fica meio difícil (com suas ressalvas) diferenciar as histórias de Goku, Clark Kent e Jesus Cristo. Mesmo que Akira Toriyama (criador do universo Dragon Ball), Joe Shuster e Jerry Siegel (criadores do Superman) sejam de países, culturas e religiões diferentes, isso não impediu que houvessem referências (satíricas ou não) à divindade cristã em suas obras.

A relação religião x cultura geek não fica restrita a isso. Ao longo de diversas histórias, seja nos filmes, nos quadrinhos e nas séries, temos muitas ligações à religiosidade de seus personagens. Grandes exemplos disso são Demolidor e Noturno.

Matt Murdock, o sombrio vigilante de Hell’s Kitchen, é retratado como alguém que tem consciência de seus pecados, e, por inúmeras vezes, se confessa com o padre antes ou depois de ir ao combate. Seguindo um viés parecido, Kurt Wagner costuma viver uma vida de penitência, sentindo-se culpado pelos seus pecados e até mesmo associando-os à sua aparência, e muitas vezes leva um terço em suas missões. Pelo universo X-Men, podemos lembrar também das raízes judaicas do Magneto, que, quando criança, perdeu toda sua família no holocausto.

Isso tudo sem contarmos as histórias que interagem diretamente com elementos de natureza religiosa. Quem não se lembra de John Constantine e sua “barganha” com o diabo pela alma da bela Isabel Dodson? Ou dos irmãos Winchester, que nos seus desafios lidam com os mais diversos seres mitológicos (ou não, depende de como você vê) das mais variadas culturas e tradições, em Supernatural? Poderíamos citar também a recente American Gods, onde o tema é tão aberta e profundamente abordado.

Com certeza, religião não é um assunto novo na cultura pop! Mas será que a partir de agora isso passará um pouquinho mais perceptível para nós? Essa é só uma parte do nosso artigo, na parte dois falaremos um pouquinho mais sobre a percepção da influência religiosa nos filmes, séries e literatura!

Até lá, que a paz força esteja com vocês!

Vida longa e próspera!

Abrimos a segunda (e última) parte do nosso artigo com essas palavras tão emblemáticas. Eternizada na boca de Leonard Nimoy, a saudação de Spock, protagonista da saga Star Trek, é, na sua natureza, mais do que uma mera saudação. Conta-se que quando garoto, Nimoy, que tinha origens judaicas, foi chamado para cantar no coral da sinagoga que sua família servia. Certo dia, ouviu os líderes “proferirem, apaixonadamente, em hebraico”, nas próprias palavras dele, a benção relatada em Números 6.24-26 (Bamidbar, na Torá judaica). Abriu os olhos e viu os rabinos, com os braços estendidos para fora dos mantos, fazendo o tão famoso gesto que posteriormente viria ser consagrado por Nimoy como a saudação vulcana. Cerca de 25 anos depois, após ser escalado para o elenco de Star Trek, Leonard viu a necessidade de criar uma “saudação exclusiva do povo vulcano”, e então se lembrou do gesto que espiou (indevidamente) seus rabinos fazerem, e o reproduziu. Nascia assim o “Live long and prosper”.

Introduzir fatos, aprendizados e experiências religiosas é mais comum do que imaginamos. O que seria dos grandes mundos de Nárnia e da Terra Média sem as experiências religiosas de seus criadores? C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien eram grandes amigos, e compartilhavam mais do que apenas seu amor pela escrita: Suas obras foram permeadas de valores religiosos. Tolkien, como católico fervoroso que era, introduziu (mesmo que inconscientemente) diversas referências cristãs no universo d’O Senhor dos Anéis, como por exemplo, a ideia de um Deus único, criador, que é “Pai de todos”; e o anseio dos povos livres da Terra Média pelo retorno do rei legítimo. Lewis, como um bom protestante (anglicano, para ser mais exato), recheou As Crônicas de Nárnia com alusões à sua fé, explícitas, por exemplo, na pessoa de Aslan, que, sendo o criador e mantenedor das leis de Nárnia, se entregou em sacrifício pela traição de Edmundo. As referências não param por aí (e mais uma vez o Cap entra em êxtase), porém, não teríamos espaço suficiente para citar todas, no nível em que essas brilhantes obras merecem!

Enquanto, por um lado, temos os autores introduzindo magicamente elementos religiosos nas suas obras, por outro, podemos achar gente que consegue, de qualquer obra, extrair elementos e referências sacras!

Cada vez mais, temos, internet a dentro, nomes que dedicam suas vidas (pelo menos majoritariamente) ao discurso religioso, buscando, encontrar na cultura ligações e formas de expor sua fé. Podemos destacar, nesse meio, Yago Martins (Dois Dedos de Teologia) e Edu Molina (Glocal SP), que fazem isso de forma brilhante. Yago, no quadro Mundo Cópia, no canal do DDT no YouTube, a cada episódio busca falar sobre a “cosmovisão cristã a partir de fenômenos da mídia”, e define seu quadro como “um programa para quem gosta de pensar na cultura pop”. Edu Molina, junto com a equipe do Glocal SP, alimenta, dentre tantas outras, uma playlist chamada “Cultura Pop na Glocal”, onde olha com uma perspectiva cristã até para Game of Thrones, Star Wars e o universo DC Comics. Ambos exploram a fundo detalhes que passam despercebidos pelo público mais desatento à essas questões. E claro, o aprendizado que passam é muito bom. Quando não extraem do conteúdo as lições que almejam, usam, o conteúdo de artifício prático para ensiná-las, como fez Yago na espetacular (aliás, sugiro) série de vídeos “E se você está no Bandersnatch?”, no qual usa da interatividade que o filme da séria Black Mirror traz, para ensinar algumas doutrinas fundamentais da fé Cristã.

E por fim, creio que para fechar nosso ciclo, depois de falarmos sobre conteúdos extraídos e inspirados na religião, personagens abertamente religiosos, autores que introduzirão a religião em suas obras, e a galera, aqui mais perto da gente, que consegue tirar aprendizado religioso de onde você menos imagina, devemos falar sobre as religiões que surgiram diretamente do universo nerd!

Você sabia que o jediísmo já é a sétima maior religião do Reino Unido? Se não sabia, anota aí! Nerds de Toalha também é informação! O jediísmo é um movimento religioso não-teísta baseado nos ensinamentos filosóficos e espirituais dos Cavaleiros Jedi, de Star Wars. Para seus adeptos, o jediísmo não se define como uma religião e sim como um código de conduta, e eles seguem esse código, que é o Código Jedi. Dentre algumas outras, um tanto curiosas, “religiões nerds”, podemos citar também o “haruhismo”, que é baseado no personagem Suzumiya Haruhi do anime “A Melancolia de Haruhi Suzumiya”. O haruhismo é a crença de que Deus existe como uma menina japonesa, que está no colegial, e é extremamente entediada. O dever dos haruhistas é mantê-la entretida e, sobretudo, evitar que ela perceba que é Deus.

É, meus amigos… Esse mundo é mais extenso do que pensamos! Mas por hora, terminamos por aqui.

Saudações nerds 🖖🏻

Anthony Trabuco
Estudante de Jornalismo
Rede FTC – Salvador/BA


14 comentários sobre “Influências religiosas no universo nerd

  1. Liv disse:

    Que legal, adorei o post! Acho mto bom que vocês citaram essa diferença do Thor da mitologia e dos quadrinhos, acho que acaba que a impressão do grande público, que não tinha tanto contato com mitologia nórdica, acaba mudando um pouco. Eu falo por mim mesma, eu dei uma pesquisada antes de ver o filme, mas o que fez diferença mesmo foi ler Mitologia Nórdica do Neil Gaiman.

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    • Bira Moreira disse:

      Sou muito suspeito pra falar desses assuntos já que amo tanto quanto vocês haha amo a Marvel e esse universo incrível haha
      “Assim como amo, Percy Jackson” e todas as coisinhas que nós nerds já gosta!!!
      Espero em breve poder ver mais publicações incrível como essas e ver minhas coleções expostas aqui no blog de vocês também! Haha parabéns.

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  2. Mario disse:

    Show demais cara, O Matt Murdock é católico, Bruce Wayne é budista e além de que existe o Presença que é o Deus do universo DC. Gosto muito quando se apresenta a crença dos personagens, sendo que isso afeta bastante nas histórias.

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  3. CODcrazyman disse:

    Caraca, muito bom esse post, kkk aprendi muita coisa, parei pra ler e olha que só vivo “sem tempo irmão” mas valeu a pena parar pra ler, aprendi e descobri sobre coisas que nem imaginava e como surgiu até referências bíblicas nos filmes, séries e animes, parabéns galera do nerds de toalha. 👏👏👏

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  4. Eike disse:

    Bastante foda, é de se impressionar a maneira que os criadores tem de assemelhar de grande forma os personagens às mitologias reais, assim como a dc fez recentemente criando “Jesus” um novo Super herói que se eu não me engano, quer apenas o bem do mundo

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  5. Everton Oliver disse:

    Excelente publicação, esse assunto me lembra muito Preacher da Vertigo que talvez seja uma das HQs mais conhecidas quando se trata de temas religiosos e com uma abordagem polêmica, trazendo bastante violência e um humor bem ácido. Vale aqui uma menção honrosa a HQ do Lobo – Guerra dos Padres que também trata o assunto com uma certa rispidez…

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  6. keeufreitas disse:

    Que interessante, muito bom conhecer coisas novas, fiquei surpreso lendo já que não é coisa que costumo fazer leitura. Parabéns ótimo contexto. Gostei, me deixou curioso a ler mais coisas do assunto.

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